Tudo Sobre Nada

Setting Sun

A Sun Microsystems teve os seus momentos de glória. Houve tempos em que o Solaris era do melhor que se podia esperar em termos de Unix e o hardware em que corria impunha respeito. Hoje em dia o Solaris ainda tem uma aura de fiabilidade e robustez e o hardware da Sun, apesar da arquitectura SPARC já não esmagar a concorrência, ainda tem boa reputação, mas o mercado está diferente e as empresas olham com cada vez maior desconfiança para soluções proprietárias e especialmente se forem soluções software/hardware de um único vendor. Empresas como a SGI (ex-Sillicon Graphics) são hoje apenas uma sombra do que já foram e a Sun segue pelo mesmo caminho.

Mas nem tudo é negro, a Sun tem um enorme potencial, mesmo com o seu anterior mercado principal condenado à extinção, existem inúmeras áreas onde podem ter sucesso, se ao menos não sofressem de um caso agudo de múltipla personalidade...

Java

Esta é definitivamente a área onde a Sun tem maior impacto. O Java é um estrondoso sucesso por todo o mundo mas sofre a séria ameaça do .NET da Microsoft, e se não houverem algumas mudanças vai ser relegado para uma posição de nicho no servidor pois do lado do desktop é difícil lutar contra um .NET instalado por default.

Uma das formas de inverter esta tendência seria tornar o Java opensource - as in compatível-OSI, passível de ser incluido nas distribuições mais conservadoras opensource-wise, tipo Debian ou Fedora -, algo que a Sun rejeita (até ver) com a desculpa de que isso traria um manancial de forks que acabariam por o destruir.
Eu não concordo com esta visão por várias razões. A primeira das quais é a constatação de que os projectos opensource de grande porte funcionam como buracos negros, quanto maiores se tornam mais gente atraem e menos probabilidade de ocorrer um fork existe. Mas a probabilidade não seria nula. No entanto, por sua vez a probabilidade desses forks serem usados no mundo real em quantidade significativa também é bastante baixa, basta ver que as Java Virtual Machines (VM) alternativas que existem por aí (e nada impede a criação de VMs alternativas actualmente) não são populares.
Mas se não deixarmos de lado esta preocupação, mesmo assim eu acredito que seria possível à Sun criar uma licença para o Java que fosse ao mesmo tempo compatível-OSI e prevenisse eventuais forks de se tornarem populares. Isto poderia ser feito aproveitando o peso da marca "Java". Os testes actuais que definem a validade de uma VM Java poderiam ser usados para definir o que se poderia chamar "Java" ou não. Qualquer fork só poderia chamar-se "Java" se passasse os testes, e o branding é algo que pesa bastante na escolha do "consumidor".
Resta-nos a possibilidade de algum fork extender o original sem o violar - tal como a Microsoft tentou fazer - e essas extensões ganharem uso geral, fragmentando a plataforma. Este risco é quase impossível de eliminar com uma licença compatível-OSI, mas seria também um risco muito diminuto, dadas as restrições de branding já referidas.

No final o benefício seria uma VM Java em todas as instalações de Linux potenciando assim o aumento do desenvolvimento de aplicações mais viradas para o desktop (veja-se o caso do Azureus) que, beneficiando da característica write-once/run-anywhere do Java, chegariam ao Windows, dando razões reforçadas para os utilizadores comuns o instalarem (já que o tempo das applets já lá vai e pouca gente sente a falta do Java Plug-in se não o tiver instalado).

A moral da história é que o Java ganharia muito em ser opensource, desde que tomados os devidos cuidados para prevenir a fragmentação da plataforma, algo que ninguém deseja mas que pode ser evitado. E a Sun sabe isto, mas tem demasiado medo que a IBM ganhe um maior peso na decisão do caminho que o Java deve tomar.

Solaris vs. Linux

Aqui o panorama é mais linear: o Linux está a fazer uma grande mossa nos Unixes tradicionais e a Sun teima em ignorá-lo, querendo impingir o Solaris à força. E o pior é que nos dias pares aparece um tipo a dizer como a Sun está empenhada no Linux e nos dias ímpares aparece outro (ou o mesmo) a denegri-lo, criticando o modelo de desenvolvimento e/ou determinadas empresas produtoras de distribuições. Deviam decidir-se, pois ninguém compra nada a uma empresa que não sabe o que quer.

Para mim a situação é clara aqui. O Solaris ainda tem enorme peso em algumas áreas (sector financeiro, por exemplo) e a Sun deve apostar nisso. Deve também apostar no Solaris x86, pois o SPARC tem os dias contados, com os avanços da AMD (com o Opteron). Só que não deve apostar no Solaris à custa do Linux, usando a conversa "se os clientes quiserem Linux, nós damos-lhes", que soa terrivelmente a "não lhes vamos ligar muita importância depois de recebermos o pagamento". Um cliente que leia uma coisa destas e esteja interessado em usar Linux vai comprar a outro lado.

Não destoando da normal esquizofrenia, a Sun, que de vez em quando dá umas facadas no modelo opensource (como esta última, protagonizada pelo seu CEO, Scott McNealy), anuncia agora que vai tornar o Solaris opensource. Por mim isto é positivo, mas espero que eles não pensem que isso vai travar o avanço do Linux, seria muita ingenuidade da parte deles.

Mixed Feelings


No final das contas a Sun é uma empresa que eu gostaria de ver a ter maior sucesso, dada a quantidade de tecnologia interessante que albergam, mas que infelizmente não sabe dar a volta por cima, como fez a IBM, por exemplo (que também não largou o AIX mas não o anda a impingir como The One True SolutionTM).

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