A Microsoft tem o
desktop completamente controlado, e nem o Linux vai conseguir fazer-lhes alguma mossa visível nos próximos anos.
Esse controlo baseia-se no
Windows e no
Office, portanto é aqui que a concorrência deve centrar esforços. Mas ao contrário do que muita gente pensa, a Microsoft pode manter a dominância e
ao mesmo tempo tornar-se domesticável, senão vejamos...
Windows
Durante anos a Microsoft seguiu - e ainda segue - uma política de
embrace, extend & extinguish em relação aos
standards, e isto tem condicionado fortemente a escolha dos consumidores, erradicando a concorrência. Esta estratégia tem sido seguida com vista a garantir a manutenção do domínio do Windows e também usá-lo como forma de dominar o mercado de servidores.
Podemos tomar como exemplo o Internet Explorer, cuja interpretação "imaginativa" dos
standards (CSS, Javascript modificado) torna fácil cair na ratoeira do desenvolvimento de sites IE-only. Uma vez que o IE só existe em Windows[1], isto impede os consumidores de optarem por outra plataforma.
No servidor, podemos observar o caso do
Active Directory, que é fundamentalmente a conjunção de um serviço
LDAP com autenticação baseada em
Kerberos 5, mas com diferenças suficientes para tornar a
interoperabilidade com produtos concorrentes algo de bastante difícil. No entender da Microsoft, isto colocaria o Windows Server como solução natural e incontornável para servidores de redes Windows. Isto resultou, praticamente erradicando as soluções concorrentes, por exemplo, da
Novell.
Só com o advento do
Samba é que o panorama começou a mudar, com servidores Linux a tomarem lugar como servidores de ficheiros, impressão, e em alguns casos até autenticação completa, em redes Windows. Mas o Samba tem o
handicap de ser desenvolvido à custa de
reverse-engineering dos protocolos da Microsoft.
Em ambos os casos acima, não é necessário retirar a dominância à Microsoft, mas apenas criar "massa crítica" na concorrência.
No caso das violações dos
standards web, basta colocar o
Firefox numa posição minoritária, mas suficientemente grande para obrigar os
web developers a seguirem os standards e a garantirem que os seus sites também funcionam nele.
No caso do Active Directory, basta que a interoperabilidade se torne absolutamente necessária. Por exemplo, já hoje se começam a ver
appliances para servir ficheiros, impressão, ou funcionar como
proxy[2], que se integram em redes Windows, baseando-se em
Linux + Samba. Se estas
appliances se tornarem populares, a Microsoft terá de as ter em consideração sempre que pensar em quebrar os protocolos existentes.
É claro que a Microsoft poderia tentar impôr o Windows nessas
appliances, mas teria de convencer os fabricantes a desistir do
controlo,
flexibilidade e potencial de
redução de custos que o Linux lhes oferece.
Office
Os formatos do Office têm-se tornado cada vez mais incontornáveis, sendo usados, na maior parte dos casos, em situações onde um formato mais aberto e interoperável, como o
PDF[3], seria preferível.
Isto é
pernicioso, não só porque força os consumidores a optarem pelo Office, como coloca muitos dados
nas mãos da Microsoft. No futuro, muitos ficheiros poderão deixar de poder ser lidos, por não haver uma versão do Office capaz de o fazer que corra em
hardware da altura, e por o formato ser completamente fechado[4].
Existe alguma consciência deste facto em alguns círculos. Nomeadamente na administração pública de alguns países, que estão a começar a dar preferência a soluções mais abertas. A
União Europeia fez recentemente algumas recomendações nesse sentido, que incluíam o formato XML do
OpenOffice.
Os formatos proprietários do Office também têm permitido à Microsoft ganhar terreno no mercado dos
PDA e
SmartPhones. Neste último mercado ainda é o
Symbian a dar as cartas, e a
Nokia, que domina este mercado (e detém a maioria da empresa), não tem nenhum telemóvel com
Windows SmartPhone, portanto não se prevê que isto mude proximamente.
Mas a convergência entre os PDA e os SmartPhones está a acelerar, e a situação pode mudar rapidamente, uma vez que não existem aplicações com compatibilidade suficiente com os formatos do Office para Symbian (que eu saiba).
Na última versão do Office já existe um formato baseado em XML, mas que incluí muitas
blobs binárias proprietárias lá dentro[5]. Se a Microsoft fosse obrigada a tornar públicas as especificações deste formato e dos anteriores, tornar-se-ia vunerável, e perderia a capacidade de se impôr pela força noutros mercados.
Conclusão
Será muito
difícil retirar a dominância à Microsoft, mas se lhe retirássemos o poder de definir pseudo-
standards e formatos proprietários, tornar-se-ia um
elemento responsável do ecossistema informático mundial (ainda que dominante), e não o elemento
patológico que é actualmente.
[1] O Internet Explorer para Mac é completamente distinto da versão para Windows, tem comportamentos diferentes em muitos casos, e foi já descontinuado pela Microsoft.
[2] Quem tem umas appliances engraçadas é a Caixa Mágica, em particular o ProLook.
[3] O mais curioso é que há muita gente que ainda pensa que para gerar PDFs é necessário comprar o Adobe Acrobat Writer, quando existem soluções gratuitas e perfeitamente capazes em 99% dos casos, como o PDF995 ou o Cute PDF Writer.
[4] Os formatos do Office até ao Office XP têm até outra particularidade interessante, são basicamente as estruturas do programa despejadas para um ficheiro no disco. Isto não só torna a sua leitura por outros programas em algo extremamente difícil (até para as versões do Office para Mac), como é também algo de impensável do ponto de vista da engenharia de software.
[5] Por oposição ao OpenOffice, cujo formato é simplesmente um ficheiro zip com os objectos e um XML, que está completamente definido.