Sempre que se criticam as práticas comerciais da
Microsoft, alguém tem de sair debaixo de uma pedra e afirmar que são perfeitamente aceitáveis e naturais, porque o objectivo da Microsoft é
gerar lucro e se isso implica uma atitude anti-concorrencial então que seja. Mas estão enganados...
O objectivo de qualquer empresa
é, no final do dia, gerar receitas e ter lucro, mas esse nunca deverá ser o seu objectivo
primário, mas sim algo que acontece como efeito secundário. Parece ridículo, mas sigam o meu raciocínio...
Pensem num conjunto de empresas extremamente lucrativas à vossa escolha, agora tentem descobrir quantas delas partiram de um «
deixem cá ver o que é que eu posso fazer para me tornar milionário». Acho que vão acabar por concluír que são poucas, se existir alguma...
Acontece que a motivação pelo lucro e as acções necessárias para criar uma empresa de sucesso são
incompatíveis. De um lado temos a visão egoísta «
espremer os clientes até ao último cêntimo» e do outro lado temos uma visão orientada à sua satisfação.
Uma empresa deve, em primeiro lugar, tentar produzir bens ou serviços que
agradem ao cliente, tentando a partir dessa base equilibrar o preço de venda com os custos de produção. Neste ponto estamos a tentar agradar ao cliente sem nos sacrificarmos.
Esta situação é a ideal, dada a minha premissa inicial. No entanto, é possível caminhar no sentido do lucro sem a violar. Como?
Cada um de nós associa um determinado valor a cada produto, e esta é a base segundo a qual criamos a sensação de que estamos a ser roubados ou a comprar uma autêntica pechincha. A empresa deve tentar descobrir qual é esse valor "intrínseco" do produto e usá-lo, possivelmente ligeiramente acima, só para lucrar mais uns trocados. Na maioria dos casos, os custos de produção serão inferiores a esse valor, e os consumidores ficarão contentes na mesma.
Dois exemplos:
- Dar 20€ por um CD-áudio é um roubo, mas 20€ por um DVD-vídeo já é mais ou menos razoável. Se calhar se os CD-áudio custassem 7,5€, o pessoal não recorreria tanto aos MP3 piratas e se calhar as editoras até teriam mais lucro. Neste caso eles estão a tentar explorar o consumidor, e este vinga-se.
- Há por aí leitores de DVD de sala a custar 45€, o que é uma autêntica pechincha. Neste caso eles podiam vendê-los uns euros acima, e o consumidor ficaria contente na mesma.
No fundo tudo isto é
uma questão de imagem. Uma empresa que procure o lucro a todo o custo não o vai conseguir esconder por muito tempo, o que vai acabar por manchar a sua imagem e empurrar os consumidores para a concorrência.
O que é que isto tem a ver com a Microsoft?
Os objectivos da Microsoft são claros,
ganhar dinheiro, nem que para isso tenham de vender produtos de fraca qualidade a preços elevados, perverter
standards para eliminar a concorrência, ou usar o seu peso para impor acordos
anti-concorrênciais aos seus parceiros (que os aceitam ou abrem falência).
Isto tem vindo a desgastar enormemente a sua imagem, mas a posição da Microsoft hoje em dia não deixa grandes margens para escolha. Os consumidores continuam a comprar os seus produtos, porque acham que
não têm outro remédio, e assim a Microsoft não sofre consequências visíveis desta atitude selvagem.
Mas temos de nos lembrar que
o mercado muda, e apesar de hoje em dia não se prever nenhuma mudança que possa revelar-se fatal para a Microsoft, elas acontecem e são mesmo assim,
imprevisíveis. Nessa altura a Microsoft vai perceber que a imagem é muito importante, e poderá já não ir a tempo de a alterar.
A IBM
A
IBM apercebeu-se disto recentemente. A sua dimensão descomunal tem agora menos importância do que tinha antigamente, quando a sua área principal era o
hardware. Agora, empresas mais pequenas podem oferecer
serviços com o mesmo nível de qualidade da IBM, e a questão da imagem toma uma relevância acrescida. Ora a IBM não gozava de boa imagem entre as classes técnicas, e estas podiam influênciar os decisores na escolha de contratos de serviços técnicos.
Na minha opinião, essa é uma das razões do apoio que a IBM dá a diversos projectos
opensource. Não só lhes permite obter proveitos do
software em si (por exemplo, podendo ter Linux disponível para toda a gama de arquitecturas que vende), como ainda sobe na consideração de muita gente, que mais tarde não hesitará em recomendar IBM aos seus
managers. Ser um bom cidadão compensa.
A Apple
Outro caso interessante é o da
Apple, cujos produtos são relativamente caros, mas aceitáveis dada a boa imagem da empresa e a sua reputação de qualidade.
A Sun
O caso inverso parece ser o da
Sun. Não estão a conseguir adaptar-se às mudanças do mercado e ainda por cima estão a dar cabo da sua própria imagem. Quando a Sun for encarada nos mesmos termos da
SCO, estarão definitivamente enterrados.
Moral da história
Tal como na política, as empresas têm de ser simpáticas para as pessoas, pois estas votam com o seu dinheiro. O problema actual é que a Microsoft é uma ditadura de partido único...