Tudo Sobre Nada

Fear the GPLv3?

Muito se tem falado recentemente acerca do trabalho que está em curso para reformular a GPL, conduzindo à sua terceira versão.

A actual versão (2) fará 14 anos em Junho e algumas pessoas consideram que está a precisar de uma profunda revisão para poder endereçar novas ameaças, tais como as patentes de software.

Na minha humilde opinião, a actual GPL ainda está perfeitamente actual e serve honrosamente os objectivos a que se propôe - evitar a apropriação indevida de código alheio e fomentar o retorno à comunidade - e quaisquer modificações só vão contribuir para o aumento da confusão e FUD que sempre girou em torno desta licença.

O problema é que, do ponto de vista da FSF e dos Stallmanistas, a GPL não é apenas uma licença com objectivos claros e pragmáticos mas também uma forte arma na sua política de "software livre ou morte". Isto pode levar a uma GPLv3 que, de alguma forma, seja desagradável para todos aqueles que, como eu, têm uma visão muito menos religiosa do papel que desempenha e deverá desempenhar o software livre no "ecosistema" do software em geral.

Tudo isto para chegar a uma passagem das recomendações para a utilização da GPL, que diz o seguinte:

This program is free software; you can redistribute it and/or modify it under the terms of the GNU General Public License as published by the Free Software Foundation; either version 2 of the License, or (at your option) any later version.


Só hoje é que realmente parei para pensar neste assunto e fico sem saber como é que não me dei conta disto antes... É certo que até hoje a FSF não nos deu razões de desconfiança, mas talvez seja importante decidir se será sensato dar a terceiros o poder de mudar os termos de licenciamento do código que desenvolvemos.

É claro que esta passagem deixa nas mãos dos destinatários da licença (utilizadores ou programadores) a decisão da versão da GPL que querem respeitar, mas não deveriam ser os autores originais a decidir que termos querem que sejam respeitados?

Permitir que o código que aceitamos distribuir segundo os termos da GPLv2 passe a ser distribuido sob os termos (sejam eles quais forem) de uma GPLv3 não será prescindir da mesma liberdade que visávamos atingir inicialmente?

Agora compreendo o porquê do Linus ter escolhido para o Linux explicitamente a GPLv2, como aqui se pode constatar.

Vi a luz...

PS: lembrei-me de escrever isto quando vi este artigo no slashdot. Curiosamente o primeiro comentário a esse artigo refere exactamente a mesma preocupação de que eu falei. Parece que não é só a mim que este detalhe faz levantar as sobrancelhas.

2 Comentário(s)

  • Se a direcção para a versão 3 da GPL for aumentar o controlo sobre o que se pode fazer com um programa, como parece ser o caso, não haverá problema, uma vez que as liberdades da versão 3 são apenas um subconjunto das da versão 2.

    Já se o sentido fosse inverso, aumentando as liberdades do destinatário, esse seria um problema real para os autores do software e por isso é que também eu, nas poucas coisas que tenho distribuído, também uso "dstribuído sob a versão 2 da GNU GPL". Ponto.

    António Manuel Dias

    Por Anonymous Anónimo, em 09 Abril, 2005 11:38  

  • Se realmente a GPLv3 acabar por ser um subconjunto da GPLv2, sim.

    No entanto se isso se verificar, eu direi que estão a cometer um erro.

    A versão 2 tem o sucesso que tem porque os seus termos não são mais nem menos restritivos do que devem ser. Mexer nisso vai ser prejudicial, digo eu.

    Por Blogger Carlos Rodrigues, em 09 Abril, 2005 14:28