Tudo Sobre Nada

Porquê formatos livres?

Faz sentido reconhecer que o modelo open-source não é viável em muitas situações, tal como faz sentido recusar seguir a via fundamentalista que professa que todo o software deve ser livre. No entanto, o mesmo já não se pode dizer quanto aos formatos livres.

Para começar, é preciso deixar bem claro que um formato aberto não é necessariamente livre. Se a especificação for pública mas eu não tiver o direito de a implementar sem restrições (e pagar royalties é uma restrição), então não é livre. Esta distinção é muito importante e faz toda a diferença.

Apesar de acreditar no modelo open-source, a minha verdadeira "religião" é a interoperabilidade. Ora, toda a motivação para a interoperabilidade resulta de uma noção muito simples: cada um deve ter total controlo sobre os seus próprios dados.

Esses "dados" não existem no vácuo, são - e serão - invariavelmente suportados por algum formato de representação persistente. Sendo assim, não existe verdadeiro controlo sobre os dados se estes estiverem representados num formato que não possamos utilizar de qualquer forma, para qualquer fim, e sem qualquer controlo por parte de terceiros.

Os formatos livres...

  • ...têm o potencial de permitir aos utilizadores o uso dos seus dados de formas nunca imaginadas pelos autores do formato, usando ferramentas desenvolvidas por si ou por terceiros.

  • ...têm o potencial de permitir aos utilizadores oferecer os seus dados a qualquer pessoa, sem obrigar à compra ou uso de qualquer software em particular.

  • ...garantem o acesso futuro aos dados pois, seja qual for a situação que impeça o uso do software original, havendo acesso aos ficheiros existe sempre a possibilidade de desenvolver software para a sua leitura e possível conversão para outro formato.

O consumidor deveria reconhecer os formatos proprietários como um puro instrumento de lock-in - sem qualquer valor acrescentado para si - e preferir o uso de formatos livres, sempre que possível.

E se esse consumidor for a administração pública - com o acrescido poder negocial que detém - a preferência por formatos livres deveria ser um requisito (quase) obrigatório.
 

5 Comentário(s)

  • Não só a representação persistente dos dados é importante, como também a sua representação volátil. Com isto quero dizer que ter protocolos de comunicação livres é tão importante como formatos de ficheiros livres.

    Excelente artigo.

    Por Anonymous António Manuel Dias, em 05 Junho, 2005 23:06  

  • Concordo perfeitamente que os protocolos livres são muito importantes. No entanto, acho que os formatos persistentes são ainda mais importantes, por uma razão muito simples:

    Apenas os formatos persistentes proprietários têm o potencial de impedir permanentemente o acesso aos dados.

    Além do mais, é um problema que pode ser mais facilmente explicado ao cidadão comum, basta dar-lhe um exemplo deste género:

    Se eu tiver uma tape com 30 anos, com informação que quero usar hoje (sei lá, os dados gerados durante a primeira missão à lua), como o posso fazer?

    Se não tiver acesso ao formato dos ficheiros, é uma tarefa quase impossível, senão vejamos...

    Sem hardware compatível: teria de arranjar uma forma de converter o conteúdo da fita para um stream de bits. Tal seria perfeitamente possível, com métodos mais ou menos sofisticados. Depois teria de processar esse stream para obter os ficheiros, e depois interpretá-los para obter os dados. Se o formato destes não estiver documentado convenientemente, posso estar perante uma tarefa muito difícil ou totalmente impossível.

    Mesmo que tivesse acesso a hardware da altura e ao software original, a mesma questão continua a colocar-se: como é que eu transfiro os dados de lá para fora se não souber como estes estão representados? Só se usar o software original para os imprimir para umas quantas toneladas de papel e depois transferir tudo à mão...

    Algo deste género pode vir a acontecer no futuro, quando as plataformas actuais se tiverem tornado obsoletas e se quiser aceder a dados gerados hoje.

    Imagina quem em 2120 alguém quer analisar dados estatísticos da população em 2005... Se não souberem como ler os ficheiros gerados, por exemplo, pelo Oracle, estão lixados.

    Por Blogger Carlos Rodrigues, em 05 Junho, 2005 23:37  

  • Pensando bem... se o software original das missões à lua comunicar com o exterior de alguma forma, e eu souber como interpretar essa comunicação, então também consigo recuperar os dados...

    No entanto, isso continua a implicar que tenho acesso ao software e ao hardware usado na altura.

    Resumindo, a importância das duas coisas anda assim muito "ela por ela", mas os formatos persistentes ganham no photo-finish.

    Por Blogger Carlos Rodrigues, em 05 Junho, 2005 23:42  

  • Por outro lado, sem protocolos como o TCP/IP, HTTP e companhia, não teríamos Internet...

    Por Anonymous António Manuel Dias, em 06 Junho, 2005 10:19  

  • Pois.

    Por Blogger Carlos Rodrigues, em 06 Junho, 2005 12:44