Hoje parece que
toda a
gente decidiu dissertar acerca deste artigo no
Shade of Windows, e eu vou fazer o mesmo...
A todos aqueles sem inclinação técnica - ou vontade - de colaborar nos projectos
opensource de que fazem uso chamamos vulgarmente "utilizadores". Pode parecer que estou a constatar o óbvio mas é importante recordar que os
developers também são utilizadores, apesar de terem muitas vezes um padrão de utilização diferente (mas nem sempre).
Quando uma determinada funcionalidade não interessa a nenhum dos
developers actuais,
não é sensato pensar que se pode exigir o seu desenvolvimento sem quaisquer contrapartidas, afinal de contas a maioria dos
developers que colaboram
voluntariamente com projectos
opensource fá-lo para resolver algum problema que os afecta particularmente -
scratch an itch - ou por puro gozo e não têm
obrigações para com quem quer que seja.
É mais ou menos nesta altura que se ouvem gritos saídos das cavernas mais profundas, clamando que o modelo
opensource está furado e é
tão mau quanto o modelo proprietário, em que apenas os grandes clientes têm poder de influência.
Mas...A própria natureza do modelo
opensource permite aos utilizadores descontentes meterem as
mãos na massa e trabalharem na implementação das funcionalidades que desejam ou, alternativamente,
pagar a algum
developer que o faça por eles.
Como é óbvio, nos projectos mais orientados ao
desktop, a
maioria dos utilizadores não terão a capacidade técnica para participar, nem os recursos financeiros para pagar a quem o faça. E mesmo que tenham, não terão normalmente a
motivação para seguir qualquer destas vias, nem têm de ter.
Sendo assim,
parece que estamos num beco sem saída mas não estamos.
A verdade é que
nenhum projecto
opensource alguma vez sairá da cepa torta se se basear
apenas em contribuições voluntárias... Terá de haver sempre uma parte da força de trabalho a tratar das partes mais "desagradáveis", e isso
implica remunerações (sejam elas financeiras ou outras).
Se olharmos de perto para os projectos mais proeminentes vamos concluir que isto está a acontecer em
todos eles, e é fácil entender como e porquê...
Se uma determinada funcionalidade for importante haverá certamente alguém que esteja interessado em financiar a sua implementação, normalmente para conseguir algum tipo de vantagem que não seria possível sem a existência dessa funcionalidade.
Temos um claro exemplo disto na
arquitectura de acessibilidade do GTK/GNOME. A
Sun precisava desta funcionalidade se queria colocar o
Java Desktop System em
desktops governamentais (os verdadeiros "utilizadores"), e pagou a sua implementação.
Como a Sun, existem as mais variadas empresas a financiar a implementação das mais variadas funcionalidades, em projectos desde o
desktop ao servidor, passando pelos sistemas embebidos.
Quem apregoa o fracasso do modelo
opensource por não ouvir a voz dos utilizadores, não compreende que a verdadeira natureza deste modelo
não é o voluntarismo, é a
comunidade, e cada elemento desta comunidade move-se segundo os mais variados interesses, desde a satisfação própria à satisfação de outros para colher proveitos (sejam eles quais forem). É o
mercado em que cada projecto se insere que definirá que pedidos serão ouvidos e que pedidos serão ignorados.
ConclusõesO problema actual de falta de usabilidade e falta de atenção aos pedidos dos utilizadores que ocorre no GNOME, e noutros projectos orientados ao
desktop, não vem de nenhuma
falha do modelo
opensource, mas sim da constituição da sua
base de utilizadores.
É preciso encarar com frontalidade o facto de que a maioria dos utilizadores destes projectos são pessoas com inclinação técnica
e não utilizadores comuns, e como tal a bússola de quem os desenvolve aponta sempre no sentido de satisfazer as necessidades dos "técnicos" e não dos utilizadores.
É por esta razão que eu tenho vindo a dizer que o Linux ainda não está preparado para o
desktop, e não vai estar a médio-prazo. Hoje satisfazem-se as necessidades dos "técnicos" e começam a satisfazer-se as necessidades dos utilizadores empresariais,
cujas máquinas são geridas por técnicos, e no
futuro começar-se-ão a satisfazer as necessidades dos utilizadores comuns.
Anda muita gente a tentar dar passos maiores do que a perna, e ao mesmo tempo a dar argumentos de fracasso aos detractores do Linux e do modelo de desenvolvimento
opensource.
Post Scriptum...Quero deixar bem claro que existe uma
grande diferença entre as
funcionalidades e a sua
forma. Como alguns dos artigos que já escrevi demonstram claramente, não digo que alguns projectos (como o
Gaim) não tenham um grave caso de autismo, recusando-se a fazer alterações simples a coisas que estão obviamente mal feitas, mas no caso geral a surdez é algo conjuntural e não endémico.