Acho que já aqui casquei o suficiente nos detalhes do
desktop Linux, portanto desta vez vou tentar pegar nisto por outra ponta...
Com o passar do tempo vou-me convencendo cada vez mais de que a comunidade
open-source só consegue atingir patamares elevados de qualidade quando se trata de software
estrutural (ou estruturante, conforme queiram). Quando se trata de software final (i.e. aquele que o utilizador comum vai usar directamente,
as is) o cenário muda totalmente de figura.
O
Apache, o
PostgreSQL, o
kernel Linux, entre tantos outros, têm uma qualidade reconhecida, e em muitos aspectos são mesmo
la crème de la crème, mas ninguém diz que o
Gnome ou o
KDE são do melhor que há. Quando muito, dizem que dá para fazer tudo o que interessa, que já estão melhores do que antigamente, ou que não são piores do que o Windows - algo que não transmite absolutamente nenhuma confiança.
Julgo que cada um de vocês terá uma opinião acerca disto: uns poderão demonstrar por
a + b que é totalmente falso, outros dirão que é um defeito inerente ao modelo
open-source, etc, etc. Eu digo apenas que é um problema da forma como a comunidade é constituida actualmente...
Hoje em dia a comunidade
open-source (activa) é composta na sua esmagadora maioria por programadores
hard-core, daqueles que gostam mesmo do lado "engenharia" da coisa, quer sejam já experientes ou ainda "aprendizes".
Apesar deste tipo de pessoas ter normalmente uma grande capacidade criativa quando se trata de encontrar soluções para problemas, também raramente têm algum sentido estético ou do que significa a palavra "usabilidade". Isto falando apenas daqueles que se propôem tentar fazer algo que exige sentido estético e sensibilidade para a questão da usabilidade, já que a maioria acaba por fugir deste tipo de projectos (não por reconhecerem as suas limitações, mas por falta de interesse).
O elemento comum da comunidade
open-source é capaz de desenvolver uma excelente linguagem/plataforma, um excelente
toolkit, ou um excelente
application server, mas não uma excelente aplicação baseada nestes três componentes.
Portanto, a maioria dos elementos activos na comunidade parecem-me ser tipos que só jogam em casa quando se trata de desenvolver software que permite a terceiros desenvolver soluções interessantes. É uma espécie de comunidade dos bastidores.
O Linux (no global, não apenas o
kernel) é bem representativo disto: tem razões de peso para ser uma boa escolha no servidor e nos sistemas embebidos, e tem um
enorme potencial como base para
appliances de rede ou ao nível do consumidor (todos aqueles sistemas embebidos que têm uma interface gráfica não trivial). Algo como um
kiosk ou máquina multibanco poderia bem ser baseada em Linux,
sem perda de qualidade em comparação com qualquer outra solução.
Esta tendência da comunidade para ser
enabler de soluções, mais do que fornecedora, é o que tem atraído a participação de um grande número de empresas, que se juntam à comunidade pagando a programadores ou financiando projectos.
No fundo, isto acontece porque estas empresas que assim participam não vêem a comunidade
open-source como um
concorrente, mas como um
fornecedor de componentes.
É por isto tudo que eu digo que a comunidade
open-source tem capacidade para conquistar o mundo, mas não no
desktop.
Pessoalmente (já) não considero isto um problema. A minha visão dos objectivos essenciais do movimento
open-source (no geral) abarca principalmente as questões da
interoperabilidade e da
partilha de conhecimentos, que não são em nada ameaçadas por esta situação, talvez até o contrário.